21 dezembro 2013

F-X2: perguntas e respostas, opiniões... Parte 2 - o Sukhoi Su-35.

Muito se falou que a melhor opção de todas era o Sukhoi Su-35 (codinome Flanker-E, segundo a OTAN). Ele é um caça de geração 4++, e o seu primeiro vôo foi em fevereiro de 2008. Ele é um caça de ataque e superioridade aérea pesado, de longo alcance e multi-função. Aliás, é padrão hoje em dia caças multi-função. Por mais difícil que seja fazer um caça desses, os custos baixam no uso, e na hora de vôo.

Vale lembrar que originalmente ele é um derivado do Su-27 (Flanker), que voa desde os anos 1980, mas tem origem em projetos do final dos anos 1960 (sim, em aviação de defesa as coisas são lentas). Dali, teríamos o Su-27M e depois o Su-35 (esse é que voou em 2008).


Alguns dados técnicos sobre o Su-35:
  • Pista necessária para pouso e decolagem: 700 m.
  • Velocidade máxima: Mach 2,25.
  • 8000 kg de bombas e mísseis, distribuídos em 13 cabides de armas ao longo das asas e do corpo.
  • 2 turbinas.
  • 21,9 m de comprimento.
  • Aviônica toda produzida na Rússia.
Tem mais detalhes técnicos, mas eu não vou falar aqui. Em termos comparativos, ele perde hoje em dia para o F-22 Raptor, inclusive no preço (o que não é um espanto). O Su-35 custa para os russos, o preço de US$ 50 milhões cada. É um caça muito bacana, sem canards (o que diminui a sua área de reflexão dos radares, ou seja, melhora a sua condição stealth), altamente manobrável (tendência que surgiu depois dos MIG-29 Fulcrum), e capaz. A tecnologia russa é muito boa em produzir muito com pouco. Os MIG-25 Foxbat que o digam.

O que isso tem a ver com o Brasil?

Em 2004, a concorrência para o programa F-X2 era composta do Su-27M, MIG-29, JAS-39 Gripen, F-16 e Mirage 2000.
  1. Sobre o Mirage 2000, bem... Acabamos comprando nos anos 1990 alguns Mirage 2000 para a base de Anápolis, mas eles estão hoje (2013) no fim da sua vida útil, logo... Dançou. Agora é sucata. Além, o Mirage 2000 é um avião velho. Ponto. Os franceses já estavam migrando para o Rafale.
  2. O MIG-29 está saindo de linha e sendo atualizado ou substituído pela sua variante mais recente, o MIG-35 (Fulcrum-F). Além disso, o MIG-29 tem manutenção cara.
  3. O F-16 é um caça dos anos 1970, um tremendo pé-de-boi, encara qualquer parada... Mas no passado foi negado ao Brasil (final dos anos 1970) a compra. O governo americano declarou que só autorizaria a venda para países que "estivessem fazendo frente à ameaça comunista". Mas isso não os impediu de vender à Venezuela, em tempos pré-chavistas. Além disso, o F-16 é um avião ainda mais velho do que o MIG-29. No way, dudez.
  4. O Gripen era uma boa opção, mas falo mais dele em outro post. :-)

Vamos à história dele com o Brasil: Em 2001, o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou a concorrência F-X2, cujo objetivo era reequipar e atualizar a Força Aérea Brasileira. Entre outras muitas coisas, qualquer empresa que vendesse, teria que fazer uma parceria com a indústria nacional para produção local. Esta é uma exigência da concorrência.

A proposta da Sukhoi era fazer uma parceria com a Avibrás para que partes do Su-27M fossem montados aqui, ao custo de US$ 700 milhões por 12 unidades (US$ 58,3 milhões a unidade). Se a Sukhoi ganhasse, a Embraer venderia 50 aviões de passageiros para a Aeroflot, empresa áerea estatal russa (talvez assim diminuisse o índice de quedas de aeronaves russas). O Su-27M (posteriormente o Su-35) era superior ao Mirage 2000, e seria o primeiro caça pesado supersônico a ser vendido para a América Latina. Mas quando trocamos de governo, o novo presidente, Luís Inácio Lula da Silva, focou em questões sociais (realmente necessárias), e a concorrência ficou suspensa até 2005.

Em 2007, a Russia ofereceu o Su-35, que ainda era um protótipo (baseado no Su-27M). Agora, a concorrência era entre o Boeing F/A-18E/F Super Hornet, o Lockheed Martin F-16BR, o Saab JAS Gripen NG, o Dassault Rafale e o Eurofighter Typhoon. O Brasil decidiu comprar 36 caças, podendo chegar a 120, para substituir os Northrop F-5BR (com seus quase 50 anos de idade), os Dassault Mirage III/V, os Mirage 2000 em operação e quem sabe, até os AMX (feitos em parceria da Embraer com um consórcio italiano).

Um parênteses: O F-5, que ainda está em uso, é um caça muito simplório para as suas necessidades. Na verdade ele é derivado de um avião de treinamento a jato, o T-38. Logo, o que a Força Aérea Brasileira fez, atualizando o F-5 para a variante BR, transformando-o de um caça de 3a em 4a geração... É de tirar o chapéu.Para quem não entendeu, o F-5 foi refeito do zero no Brasil. Logo, podemos dizer que ele é um caça brasileiro, e ganhou 20 anos de sobrevida. Esta foi uma alternativa ao programa F-X, que não saiu do papel.

Voltando... Então, em outubro de 2008, a concorrência fechou com 3 caças: O Gripen NG, o Super Hornet e o Rafale. Em outubro de 2009, o Ministério das Exportações e Importações Russo declarou que a Rússia venderia 120 Su-35 ao Brasil e teríamos total transferência de tecnologia. A concorrência ficou parada (faltou dinheiro), e só voltou à baila no mandato da presidente Dilma Rousseff, em janeiro de 2011. Em dezembro de 2013, o Gripen NG venceu a disputa.

Ouvi muita gente misturando ideologia com técnica, e falando besteiras, como que o caça russo era o melhor de todos, e que deveria ter sido ele o escolhido. Bem, vejo muita gente falando sobre o que não entende, começando com jornalistas e passando por pessoas comuns. Somos quase 200 milhões de técnicos da Seleção Brasileira de futebol, já fomos centenas de milhões de comentaristas políticos, agora somos centenas de milhões de especialistas em aviação de defesa. Aliás, escrever esses posts começou devido a muitas pessoas falarem sobre o que não entendem, e principalmente discursarem como se entendessem. Eu conheço um pouco, então resolvi escrever.

Vou então explicar algumas coisas a respeito do Su-35 que são necessárias, e que podem trazer a mentes abertas algum esclarecimento a respeito:
  • O Sukhoi Su-35 é uma atualização feita em cima da mesma célula, do Su-27 Flanker. É um avião cujo projeto iniciou-se no final dos anos 1960 e primeiro vôo em 20/05/1977. Ou seja, é um avião antigo, com projeto que requer atualizações. O Su-35 é uma delas.
  • Uma das maneiras de medir o sucesso de qualquer aeronave é contar as vendas dele para outros países. O Su-35 (e o 27, em decorrência) vendeu pouco para o exterior: A Coréia do Sul cogitou-o em 1996 (comprou o F-15K), assim como a Austrália, em 2002 (comprou o F-35). Índia, Malásia, Argélia e Grécia receberam ofertas russas, assim como a Libia. Mas nenhuma se concretizou. Quem acabou comprando foi a Venezuela, mas falo disso lá embaixo. Logo, por esse parâmetro, ele não é bem sucedido.
  • O preço de cada unidade varia entre US$ 40 e US$ 65 milhões. Um tanto quanto caro, não? Também temos que ver o custo de hora de vôo, que impacta no custo final. Por exemplo, os americanos tem usado ainda muito o Bell UH-1 "Huey", apesar de ter helicópteros bem mais novos, como o Sikorsky UH-60 Black Hawk. Motivo? A hora de vôo do velho "Huey" (lutou no Vietnã!) é menos da metade do Falcão Negro. Então...
  • Voltando ao Su-35: Pelas dimensões, é um avião grande (21 m) e pesado (19 toneladas). É um bom interceptador, mais interessante como caça-bombardeiro do que caça propriamente dito. É altamente manobrável (principalmente na variante Su-37), mas não quer dizer que seja eficiente.
  • A aviônica do Su-35 teve que ser atualizada, o que sobe o preço (e muito), você não compra um radar de acompanhamento de terreno no PromoInfo.
  • A aviônica é toda russa, o que torna um problema: Não temos indústria de defesa que possa construir esses sistemas aqui no Brasil em um futuro próximo. Lembremos que o Brasil não investe nesse campo desde o último governo militar, e nisso já vão quase 30 anos. Como vai o projeto do Sidewinder nacional, o Piranha? E as plataformas de lançamento de mísseis Astros II, e tanques como o Osório... Onde estão? Perdemos o bonde, e não adianta achar que a transferência total de tecnologia irá transformar-nos de uma hora para outra em potências de produção de itens militares. Outra coisa, aviões caça não são automóveis em linha de montagem. Quando dependemos de apenas um fornecedor (que seja os EUA, a Suécia ou a Rússia), não é vantajoso para quem compra. Ou seja... Nós.
  • Mais um problema: O pós-venda russo. Há quem diga que o principal problema dos russos é a falta de peças de reposição, que levam até 2 anos para fornecer e a manutenção complexa. Há fontes que dizem que a Venezuela está comendo o pão que o capeta pisou com os Su-27/35 e os helicópteros russos adquiridos. Achei referências também à Índia, que tem sérios problemas de falta de peças sobressalentes para seus aviões russos. Ou seja, o apoio logístico russo não é confiável. Claro que a manutenção depende da equipe em terra, não está vinculado à origem. Mas falta de peças é um problema. E novamente, não se desenvolve uma indústria aerospacial de defesa de uma hora para outra.

Alguns dirão que isto não se justifica. Esquerdistas extremos insistem que que essa era a melhor opção, apenas baseados na ideologia de "yankees go home!", ainda mais agravados pelos escândalos de espionagem americana em solo brasileiro. Não é tão simples assim, é muito dinheiro investido, e antes que falem sobre irresponsabilidade, existem muitas pessoas responsáveis com o dinheiro público no Governo. O fato é que tem bem menos gente responsável do que deveria, mas tem.

Minha opinião: Acho que o Su-35 deveria estar na concorrência final ao invés do Rafale, mas não sou eu que decido, é o Ministério da Defesa. Em particular, acho que a questão da aviônica acabou pesando contra o Su-35, sem contar o pós-venda russo. Afinal, histórias como as da Índia e a da Venezuela são de conhecimento até do reino mineral. Afinal, não é bom ser "refém" e enfrentar "chantagens" de nenhum outro país. E pelo visto, a Rússia não é nada amiga nesse aspecto.

Por último, não adianta achar que iremos produzir tudo em solo pátrio, porque não iremos. As demandas não são tão grandes que justifiquem uma linha de produção grande e investimentos de monta. Turbinas provavelmente continuarão a serem importadas, assim como peças específicas do avião.

No próximo post, os projetos PAK-FA e FS-2020 (os caças de 5a geração russo e sueco) e o Brasil.

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1 Comments:

Blogger Marcelo Eiras said...

Bem, me pareceu uma decisão acertada a escolha do Gripen, que coincidentemente cheguei a pilotar o simulador no stand da gripen em 2011.. O Rafale é um avião ruim e caro com o qual a França jamais conseguiu vencer nenhuma concorrência internacional. Caças Russos só servem para Russos, são conhecidos por serem de manutenção complicada especialmente por problemas de reposição de peças, o Super Hornet é um excelente avião mas sabemos que os americanos não são nada confiáveis quando o assunto é repasse de tecnologia e gastar um pequena fortuna apenas para ter 30 e poucos aviões modernos não faria sentido

O é inacreditável é o governo ter demorado 15 anos para escolher um caça e com isso ter deixado o país sem nenhum vetor de interceptação supersônico. O AMX é um caça bombardeiro de baixa altitude (olhando a historia do AMX, vemos que ele era tudo que a FAB não queria, as exigencias da FAB ná epoca era um avião supersonico de alta atitude com função de superioridade aérea, o exato oposto que é o AMX... Só valeu pelo know sobre aerodinamica de jatos que fez a Embraer, depois de privatizada produzir competitivas aeronaves comerciais de pequeno e médio porte), o Tucano é apenas um treinador avançado e para missões COIN e o F-5 é uma lata velha que embora modernizado majoritariamente pela israelense Elbit System (a AEL Sistemas é apenas uma testa de ferro) e minoritariamente pela Embraer continua sendo uma peça de museu com aviônica moderna. A modernização do F-5 foi feita mais pela situação desesperadora da FAB que via a compra de aeronaves novas cada vez mais distante. O mesmo ocorreu com a compra dos mirage 2000, um tampão até chegar um nova aeronave, o calculo tampão foi otimista e o Mirage 2000 está se aposentando agora devido a completa exaustão de capacidade operacional e os "modernos" F-5BR voarão no máximo mal e porcamente até 2017.
O grande problema é que estamos a 5 anos de termos o Gripen NG e estamos sem nada que não seja vergonhoso de asas fixas para colocar no ar.
Acredito que o governo não terá outra opção a não ser pedir para a Suécia enviar os Gripen C/D com urgência pois a FAB está a um passo do colapso total, assim como a marinha (praticamente simbólica) e em menor grau o exercito.

21/12/2013 22:11  

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