10 fevereiro 2014

Por que eu sou "de esquerda"? [Atualizado]

Há alguns anos, eu me defini politicamente como um alinhado ao pensamento dos jacobinos, da Revolução Francesa. Sim, além de canhoto, sou politicamente progressista, ou "de esquerda". Podem queimar meu nome em praça pública, eu deixo.

Mas o que me fez tomar esse alinhamento? Quais são as consequências disso? O que eu acho do comunismo? O que eu acho do capitalismo? Todas essas respostas... Não, não serão na sexta, no Globo Repórter. Serão aí embaixo. Se prepare que ficou longo.

O que me fez me alinhar à esquerda?


Como (quase) todos sabem, sou protestante, de linha evangélica. Sou de uma igreja que é politicamente neutra, o que eu acho ótimo: Igreja não tem que se posicionar a favor ou contra partidos, mas sim, posicionar-se contra o mal que há na sociedade, e adeptos da missão integral (como eu) chamam de "pecado estrutural", que é cada uma das mazelas que qualquer sociedade (inclusa a brasileira) padece. Ou seja, sou a favor de que igrejas alinhem-se com ONGs, partidos políticos e outros entes jurídicos da sociedade para lutar contra discriminação, fome, pobreza, injustiça social, violência (contra qualquer tipo de grupo), entre outros motivos.

Mas não concordo que a igreja, enquanto instituição, deva alinhar-se politicamente. Por isso, sou avesso a partidos, como o PRB, que foi praticamente fundado pela Igreja Universal. A bancada evangélica no Congresso Nacional, arroga para si o direito de ser voz da justiça divina, defendendo os valores da família. Mas comete um pecado estrutural, ao usar o espaço público para legislar em causa própria, ou pior: atuar em defesa do grupo que o elegeu à custa da sociedade como um todo. Infelizmente, políticos evangélicos são "mais do mesmo".

Vamos então, aos meus motivos.

O primeiro motivo foi a leitura da Palavra de Deus.


Vamos começar pelo Velho Testamento. Creio eu que quase todos os profetas do Velho Testamento, em algum momento protestaram contra a injustiça social, contra o pecado que entendendo como estrutural, perante reis, lideranças e o povo. Alguns exemplos podem ser vistos em:

Tem mais, mas vou ficar por aqui, apenas.

Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus.
Miquéias 6:8
Isso, sem contar com a lei mosaica. Se você vencer a resistência e ler o Levítico (talvez o livro mais chato de se ler da Bíblia), você verá vários dispositivos criados não só para socorrer os necessitados (o órfão, a viúva, o estrangeiro e outros pobres), mas também meios de diminuir a desigualdade na sociedade hebréia, naquele tempo. Dessas leis, posso destacar:
  • A Lei da Rebusca (Levítico 19, versículos 9 e 10, Levítico 23, versículo 22 e ainda Deuteronômio 24, versículos 19 a 21). Trouxe aqui um versículo que explica a Lei da Rebusca: "Quando fizerem a colheita, não colham até as extremidades da sua lavoura, nem ajuntem as espigas caídas de sua colheita. Não rebusquem a sua vinha, nem apanhem as uvas que tiverem caído. Deixem-nas para o necessitado e o estrangeiro” (Levítico 19, versículos 9 e 10).
  • O Ano do Jubileu (Levítico 25, versículos 8 a 34). O ano do Jubileu ocorria a cada 50 anos, e era um ano de justiça social. Naquele ano, os terrenos voltavam aos seus proprietários originais, escravos tornavam-se livres, presos injustamente eram libertos. Justiça social para todos.
Ou seja, o Velho Testamento mostra uma coisa bem clara: Que Deus se importa com os necessitados, e quer que seu povo importe-se com eles também, não só falando, mas fazendo.

Vamos então ao Novo Testamento. Jesus retomou e aprofundou estas preocupações. A prática da caridade, por exemplo, deveria ser desinteressada, humilde e sem motivação senão o amor pelo próximo. Isto vemos em Mateus 5, versículo 7, e também em Mateus 6, versículos 1 a 4, e ainda Mateus 7, versículo 12.

Jesus viveu o que pregou. Afinal, ele não só ensinou mas também curou, alimentou, salvou, libertou... Fez muito pela sociedade da época. É quase certo que muitos dos cegos curados o louvaram mas não tornaram-se seguidores dEle. Mas Ele não estava preocupado com isso, como notamos. Ele fazia por ter misericórdia do povo. Ah, e vale lembrarmos também de parábolas, como a do Bom Samaritano (Lucas 10, versículos 30 a 37) e o Grande Julgamento (Mateus 25, versículos 31 a 46).

Em Atos, vemos que servir aos outros era algo de muita relevância. Em Atos 6, versículos 1 a 7, foram escolhidos 7 homens (entre eles o primeiro mártir, Estêvão), cuja função era atender as necessidades da nascente comunidade cristã. E a lista de pré-requisitos era grande. O apóstolo Paulo lembra em Gálatas 5, versículo 22, que a misericórdia (ou benignidade, como queira) é um fruto do Espírito Santo, e ainda disse que devemos fazer o bem a todos, começando pelos "domésticos da fé", ou seja, os irmãos em Cristo (Gálatas 6, versículos 9 e 10). Tiago e João alertaram que ser solidário de boca pra fora não dá em nada, temos que mostrar isso (Tiago 2, versículos 15 e 16, e I João 3, versículos 17 e 18). 

Ou seja, há uma preocupação que permeia a Palavra de Deus, que é a justiça social. Não, não é a mais importante de todas (a salvação vem na frente), mas justiça social é muito importante. Fazendo a referência... Esse artigo do Alderi Souza de Matos ajudou a achar várias das referências bíblicas e organizar o pensamento. Grato!

O segundo motivo foi o próprio histórico da minha igreja. 


O Exército de Salvação é conhecido mais pela obra social, realizada há 149 anos, a partir do lado leste de Londres (onde estive, em julho de 2013, e me emocionei ao ficar ao lado da estátua de um dos meus heróis da fé, William Booth). Um dia desses o pastor da igreja da minha esposa, quando soube da minha origem salvacionista, disse-me uma frase de William Booth que o marcou muito: "Eles não ouvem o Evangelho por causa do ronco dos seus estômagos". Não sei se a frase é essa, mas conhecendo o William, não duvido nada. Não vou narrar aqui a história do Exército de Salvação, se você quiser saber, clique aqui. Queria deixar algumas frases desse herói da fé que eu respeito tanto:

A grandeza do poder de um homem está na medida de sua entrega a Deus

Deus tem um grande amor pelo homem cujo coração arde pelo impossível.


Enquanto as mulheres chorarem, como choram agora, eu lutarei; 
Enquanto criancinhas passarem fome, como passam agora, eu lutarei; 
Enquanto homens passarem pelas prisões, entrando e saindo, entrando e saindo, Como eles o fazem agora, eu lutarei; 
Enquanto há um bêbado remanescente, 
Enquanto há uma pobre menina perdida nas ruas, 
Enquanto restar uma alma que seja nas trevas, sem a luz de Deus - eu lutarei, Eu lutarei até o fim!
William Booth, na sua última pregação, junho de 1912

Uma das muitas histórias que conheço é a da fábrica de fósforos do Exército de Salvação. Segue a história:

No século XIX, na Inglaterra vitoriana, o Exército de Salvação comprou uma fábrica de fósforos, e começou a produzí-los. Na época, a produção de fósforos era em condições muito insalubres: Uso de fósforo branco (tóxico), ambiente mal-ventilado, poluído, salários ridículos, crianças trabalhando... Logo, havia uma certa quantidade de vítimas fatais nas fábricas de fósforo.

O fósforo branco era venenoso. Se entrar em contato com a gengiva ou a mandíbula, ele lentamente corroi o osso maxilar. Essa doença também era conhecida como a lepra dos produtores de fósforos e era dolorosa e deformante. Meninas sofriam dessa enfermidade e, apesar do tratamento, perdiam sua saúde e sua ocupação.

O Exército adquiriu uma fábrica em maio de 1891, e mudou o modo de produzir fósforos: Passou a usar fósforo vermelho (não-tóxico), ventilou as fábricas, despoluiu os ambientes, pagou salários maiores, colocou crianças em escolas, entre outras coisas. O slogan do fósforo produzido era: "O nosso fósforo não mata". O preço era o mesmo dos fósforos de outros fabricantes. A população preferiu o fósforo do Exército de Salvação, e rapidamente tornou-se líder de mercado. As outras fábricas foram obrigadas a mudar a sua forma de agir, e pouco a pouco, todas as fábricas migraram de uma forma de produção para outra, bem melhor. Quando todas migraram, o Exército de Salvação vendeu a fábrica. William Booth, o fundador, disse: "Nosso chamado não é para vender fósforos. Fomos chamados por Deus para mudar essa sociedade".

Cresci no Exército de Salvação. Sou a terceira geração de salvacionistas na minha família, e logo virá a quarta. Minha avó era imigrante polonesa no Brasil, converteu-se ao Evangelho de Cristo em 1927, 5 anos após a chegada do Exército de Salvação no Brasil. Foi uma apaixonada pelo Senhor, e mesmo muito pobre (costureira, vendia roupas de porta em porta, e meu avô, pedreiro), ainda ajudava os outros, na medida do possível.

Minha mãe, uma mulher de fibra, apaixonada pelo Senhor e numa estatura espiritual que um dia eu quero chegar perto, foi homenageada recentemente pelos serviços prestados ao Reino de Deus, no Exército de Salvação. Ela apenas disse: "Eu fiz tudo isso por amor a Cristo, não mereço ser homenageada". Acabou que coube a mim ir buscar o diploma, na Convenção Divisional, e ainda o Chefe Divisional, Tenente-Coronel Edgar Chagas, dirigiu palavras muito simpáticas ao meu respeito. Como ele disse, em vários lugares onde ele foi reconhecido por pessoas da ABUB como salvacionista, meu nome foi citado: "Olha, tem um assessor auxiliar da ABU no Rio de Janeiro, o Ricardo, ele é salvacionista, o senhor conhece?" Ô se conhece, ele celebrou meu casamento... A menção que o (então) Major Edgar fez a meu respeito me fez, do alto dos meus 1,95m, corar como um garotinho. Não sei receber elogios. Se fiz, foi apenas por amor a Cristo em primeiro lugar, e em segundo amor ao lugar onde eu O encontrei e me encontro até hoje.

O terceiro motivo foi a Aliança Bíblica Universitária do Brasil.

Devo muito do que sou, como cristão que pensa, também à ABUB. Militei ativamente na ABUB durante 15 felizes anos da minha vida. Fui membro de grupo de estudo, líder de grupo, "assessor informal", assessor-auxiliar e diretor financeiro da ABUB, a nível nacional. Só como assessor-auxiliar foram 10 anos, anunciando o Evangelho para cada estudante. Fiz de tudo, de organizar Cursos de Férias (para mais de 80 estudantes) a lavar pratos, de dirigir Conselhos Regionais a consertar válvulas sanitárias, de participar de reuniões da Diretoria Nacional a fazer gambiarras com um garfo para fazer um videocassete funcionar. E me orgulho de tudo isso.

Na ABU exercitei meu senso crítico, entendi que Crer é também pensar, e conheci gente que marcou minha vida. Poderia citar, entre eles, sem ordem de preferência pessoas como Ziel Machado, Ricardo Wesley Borges, Reinaldo Percinotto, Marcos Gilson Gomes Feitosa, Fred Utsonomiya, Daniela Frozi, Alexandre Brasil, José Miranda, Paul Freston, Ross Douglas (falecido), Luis Cláudio Dallier Saldanha, (Dom) Robinson Cavalcanti (falecido), Valdir Steuernagel, Carlucci, Ricardo Gondim e tantos outros heróis não cantados da Igreja Brasileira. Pessoas que me ensinaram a contextualizar a fé com prática, a ação com oração, a olhar e entender o momento presente. A compreender que o cristão deve ter a Bíblia numa mão e um jornal na outra (Robinson Cavalcanti), a entender a missão integral da Igreja e a abraçá-la (falo mais dela aí embaixo), e saber que mudar a sociedade é um dever nosso, como cristão. Logo, lembrei-me da fábrica de fósforos do Exército de Salvação (que citei aí em cima).

A ABU me fez andar pelo Brasil, a aprender muito mais do que imaginava sobre o Reino de Deus, e sobre sua relação com a realidade atual. Na ABU vi o surgimento do FALE, um movimento que fortalece nos cristãos o comprometimento social e a visão de que a sociedade deve ser mudada e para melhor, para todos. O pecado estrutural contamina as relações humanas, e combatê-lo é o nosso chamado.

Acredito na obra que mesmo passados alguns anos afastado do movimento (a vida muda e a gente muda), continuo contribuindo com o seu sustento financeiro, e ainda nutro o desejo de ajudar de alguma forma que não seja apenas a financeira. É uma cachaça (como dizia o Luis Cláudio), que depois que a gente bebe, é difícil largar.

O quarto motivo foi a compreensão da teologia da missão integral


Vale dizer que minha igreja a abraçou faz tempo. Aliás, ela pratica a missão integral muito antes de Lausanne 1974... Dizem que no Congresso de Lausanne, apontaram para o comitê do Exército de Salvação e disseram: "Ainda tem gente discutindo a missão integral... Mas aqueles ali (apontando para os salvacionistas) já a adotaram como prática há mais de 100 anos!" O Pacto de Lausanne afirma:
O evangelho todo,
Para o homem todo,
Para todos os homens.


Logo, Lausanne trouxe mais aprofundamento, compreensão e certeza daquilo que eu já cria e praticava na minha vida. O que nós chamamos de missão integral da Igreja, consiste em alguns pontos, como:
  • Afirmação da relação entre evangelização e responsabilidade social.
  • Conversão não é só "mudar de religião".
  • Novo paradigma: pecado pessoal (individual) e pecado estrutural (social). Um é matar, roubar, destruir, mentir, etc. O outro é a fome, a pobreza, a injustiça, a desigualdade social, etc.
  • Outro paradigma: Demos o peixe, ao mesmo tempo em que as pessoas aprendem a pescar, para que todos possam pescar e viver dignamente do resultado da sua pescaria.
  • Pressão por transformações sociais, na sociedade. No período da ditadura, pouquíssimos evangélicos se alinharam contra ela. A maioria, por medo, não se posicionou. Nem vou criticar, não vivi o período (nasci no meio dela). Mas muitos católicos levantaram-se contra as injustiças geradas pelo governo militar (sim, com minúsculas mesmo). Entre eles, o pastor presbiteriano Jaime Wright (que participou do livro "Brasil, Nunca Mais!"), e Waldo César, da Igreja Evangélica Brasileira.
  • Alinhamento com movimentos não-cristãos que defendem causas que vemos como válidas. É o que o filósofo Francis Schaeffer vê como co-beligerância. Isso me lembra uma piada de um amigo que não vejo há tempo, Marcos Gilson Gomes Feitosa: "Eu irei a um protesto a respeito da violência contra homossexuais com 2 placas. A primeira trará: Abaixo a violência contra os homossexuais! A segunda trará: Eu não sou um deles."
Um pouquinho de teologia:
  1. A soteriologia (estudo da salvação humana) da missão integral é o domínio de Deus, de direito e de fato, sobre todo o universo criado. 
  2. A eclesiologia (estudo da igreja) da missão integral é o novo homem coletivo. A restauração não é apenas o novo homem, mas nova humanidade também. 
  3. A missiologia (estudo da missão) da missão integral é a sinalização histórica do Reino de Deus, que será consumado na eternidade. A eternidade já começou, gente. Aqui é o início de tudo, então vamos começar a mudar por agora. A missão da Igreja é manifestar aqui e agora que o Reino de Deus será consumado aqui e além. 
  4. A missão integral da igreja declara que Cristo é Senhor sobre tudo, todos, em todas as dimensões da existência humana. 
  5. A antropologia (estudo do ser humano) da missão integral é o homem, corpo, alma e espírito. “Corpo sem alma é defunto; alma sem corpo é fantasma”. 
  6. A evangelização, na missão integral é proclamar que Cristo é o Senhor. Tudo começa no momento em que Cristo é aceito na vida da pessoa. 
Deixa eu fazer a referência... Esse PDF do Ed René Kivitz ajudou muito.

O quinto motivo foi compreender o que é esquerda e direita. 

O ideal que une a esquerda política, é o ideal de igualdade social. O ideal da direita política, por sua vez, enfatiza o ideal da liberdade individual. Por aí já podemos caminhar.

Klaus von Beyme organizou os partidos em 7 grupos, da esquerda para a direita: comunismo, socialismo, política verde, liberalismo, democrata cristão, conservador e extrema-direita.


Na esquerda, temos, dentro desses grupos, sociais-democratas (o que o PSDB foi um dia), progressistas, trabalhistas (PT?), sociais-liberais, socialistas (PSB?), comunistas, anarquistas e outras linhas de pensamento. Note que comunismo é uma linha, não a única.

Na direita, temos fascistas, conservadores, reacionários, neoliberais, monarquistas, teocratas, capitalistas, nazistas e ainda alguns grupos anarquistas. 

A distinção de direita e esquerda vem da Revolução Francesa (1789), e o Império de Napoleão Bonaparte. Na Assembléia Nacional Francesa, os partidários do rei (e do imperador) ficavam à direita do presidente da Assembléia, e os simpatizantes da revolução ficavam à sua esquerda. No início, a esquerda era uma zorra mesmo, o Barão de Gauville explicou que foi percebido com o tempo que os leais ao rei sentavam-se à direita, pois os que sentavam-se à esquerda eram dados a gritos, juramentos e indecências. Ainda na Assembléia Nacional, a direita se pôs contra a disposição dos assentos, porque acreditavam que os deputados devessem apoiar interesses particulares ou gerais, mas não formar facções ou partidos políticos. E por fim, a separação em "esquerda" e "direita" foi criado pela imprensa, o "Quarto Poder". Tem mais disso se você for ler a Wikipédia, recomendo, é uma leitura curiosa.

Esses termos não são lá muito precisos, como você (que leu até aqui) pode ver, mas é um ponto de partida. Esquerda e direita podem ser visões complementares, ou podem ser mutuamente excludentes, e ainda atingir um equilíbrio. Mas ao contrário do que muitos alarmistas declaram, a esquerda democrática não nega a liberdade dos seus cidadãos, mas considera que a liberdade para todos é possível se houver um pouco de igualdade (no caso do comunismo, igualdade ao ponto da uniformidade).

A direita afirma que o livre mercado e a democracia não se chocam (paradigma neoliberal). Mas o problema é simples: e quem não tem força social para ingressar nesse livre mercado? Ele será um excluído? Provavelmente. E essa é a crítica da esquerda, a desigualdade econômica destrói os direitos civis e políticos. Deixar que o livre mercado paute tudo torna a sociedade mais desigual.

A esquerda afirma que a plena liberdade só é possível se tivermos um certo nível de igualdade social. Como a democracia é baseada principalmente na igualdade política, a esquerda política entende que quanto mais iguais forem as pessoas, maior será a liberdade. Só que devido a situações onde governos são reféns de poderes econômicos, a democracia torna-se debilitada e frágil.

Se formos investigar a Palavra de Deus, iremos ver vários textos que corroboram posições de direita e de esquerda, logo a Palavra de Deus é neutra. Mas eu entendi, com base no meu histórico eclesiástico, pela leitura da Bíblia, pelo aprendizado da teologia da missão integral, e pela compreensão política, de que, para mim, a melhor posição a ser adotada é a de esquerda. Não está necessariamente errado quem acaba descobrindo-se um partidário da direita. É direito (ops) dele. Mas eu, com base nisso tudo, me posicionei dessa forma.

E estou feliz com minha decisão. Ah, a referência... Um texto muito bacana do Paul Freston, publicado na Ultimato. Fantástico.

As consequências

Curiosamente, essa decisão de posicionamento influenciou outras áreas na minha vida, como a opção pelo software livre. Entendo que o software livre é socialmente justo, tecnologicamente viável e economicamente sustentável. Por isso, a sua defesa por mim, além de, é claro, pela sua qualidade indiscutível.

Não, eu não sou filiado ao PT. Não sou filiado a nenhum partido, a propósito. Já tive momentos em que meu pensamento se alinhou mais ao PMDB, outros que foi ao PSB, e outros ao PT. Mas, se for para levantar uma bandeira, que seja a de Cristo:

Vamos, pois, a bandeira erguer, 
bandeira de amor e perdão!
E pelejar, até morrer
Cantando a salvação.

Cântico 98, cancioneiro salvacionista.

Votei em Lula em 1998, 2002 e 2006. Votei na Dilma em 2010, e votei novamente nela em 2014. Por que isto? Basicamente, porque em 12 anos, o Brasil mudou tanto, e para melhor... Que interromper isto agora, seria um retrocesso. Outra afirmação (e a última) é que a oposição não apresentou até agora propostas melhores do que as que tenho visto até aqui. Pesei na balança, e a situação ganha.

Isto não quer dizer que eu acho esse governo maravilhoso, tudo está lindo e sem defeitos. Longe disso. O Governo Dilma foi omisso com a reforma agrária, mantém juros muito altos,o setor industrial não está lá essas maravilhas... Sem contar as alianças político-partidárias, que fedem. Os impostos estão altos demais, e embora alguns tenham caído, mesmo que por períodos temporários (como PIS e COFINS), ainda é insuficiente. Deve-se combater a sonegação de impostos, ainda mais do que a corrupção.

Em suma, tem muita coisa errada. Mas não é culpa do Governo Federal os mandos e desmandos de governos estaduais e/ou municipais. Não é a Dilma a responsável pela irregularidade da coleta de lixo na sua rua. Não é o Governo Federal o culpado por seu filho ter perdido o emprego quando a empresa fechou, por causa de processos trabalhistas. Nem o governo, em qualquer instância, é culpado da morte do cinegrafista da Bandeirantes. Apesar da mídia jogar a culpa no colo do governo todo o tempo.

Alguns dizem que é "saudável" a alternância de poderes. Sim, então a esquerda ainda tem tempo para descontar. Afinal, ela governou o Brasil todo esse tempo, até 2002... Ela ainda está no lucro.

Mas, se você quiser ler mais a respeito, recomendo ver esse post aqui, no blog da Maria Frô. Se quiser ler offline, o PDF está aqui.


Logo, gosto de ler sites de pessoas que pensam, e criticam construtivamente. Antes que achem que eu seja um "vermelho" (não, apenas preto e branco, sou Botafogo!), já li vários desses blogs e sites que criticaram o atual governo - e eles tinham razão. Vamos a alguns deles (só irei por uma lista):
  • Diário do Centro do Mundo, do jornalista Paulo Nogueira, e vários outros.  
  • Conversa Afiada, do jornalista Paulo Henrique Amorim, que fala o que pensa aqui, é processado e não perde uma.  
  • Luis Nassif Online | GGN, que já foi até o BR-Linux responder comentários sobre software livre, entre outros. Um sujeito que eu aprendi a respeitar e muito. 
  • Viomundo - O que você não vê na mídia, do jornalista Luís Carlos Azenha, para mim o mais centrado e equilibrado, junto com o Nassif.  
  • Escrevinhador, do jornalista Rodrigo Vianna, que saiu da Globo após as eleições de 2006, por discordar da cobertura desproporcional (para dizer o mínimo) feita pela emissora, sendo favorável a Alckmin e desfavorável a Lula (devia ter sido equilibrada).  
  • O Cafezinho | Análise Política por Miguel do Rosário, aquele que botou a dívida da Globo com o Imposto de Renda no ventilador.  
  • Blog da Cidadania | por Eduardo Guimarães, que descobri há pouco tempo e fiquei fã. 
  • Brasil 247, mais um jornal de notícias. 
  • Revista Carta Capital, que eu julgo a melhor revista semanal brasileira da atualidade. E que, por mais que apóiem o Governo vez por outra, também criticam-no severamente.
  • Stanley Burburinho, um perfil cujo avatar é o Che Guevara e que eu recomendo a leitura. Pessoa simpaticíssima, e que é até meio exagerado nas teorias da conspiração, mas que gosto de lê-lo. Tem falas interessantes, e que fazem pensar.
Tem outros, como o do Idélber Avelar, que fala de política como pesquisador. Gostei muito da análise dele sobre a eleição americana, que trouxe ao governo, Barack Obama. Em 2011 fechou, e aí ele foi para a Revista Fórum, e no ano seguinte, parou o blog. Pena.

Logo, se você ver eu mencionando, tuitando algo deles, já sabe a origem. Recomendo a leitura, mesmo que você seja de direita. Sempre tem algo que se aproveite. Para mim e vários outros, muito é aproveitado.

O que eu acho do comunismo?

A Revolução dos  Bichos, do George Orwell, explica muito sobre o comunismo. Na prática, a teoria é outra, e o sistema que seria muito bonito em vários aspectos, cometeu muitas atrocidades de forma escancarada. O capitalismo também cometeu, só que muitos não vêem...

Bem, eu não gosto do comunismo. A falta de liberdade religiosa é um acinte à liberdade do cidadão, o governo totalitário é um absurdo (sim, isso vale para Cuba também), e o ideal comunista, uma utopia impossível de ser atingida.

Logo, estou mais perto do socialismo e da social-democracia (lembra do que escrevi lá em cima?). 

E quanto ao medo do comunismo do PT no governo, perseguições religiosas, etc?

Na boa, se o PT fosse implantar o comunismo, já teria feito, tendo 12 anos de poder. Vão fazer isso agora? Eles gostam do comunismo tanto quanto os bancos privados gostam, gente, se toquem... Sim, eu fui irônico.

Perseguição religiosa? Honestamente, você acredita nisso? Aliás, estás com medo de perseguição religiosa?

Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
Mateus 5:10

Francamente, já passou da época do cristianismo protestante brasileiro continuar achando que "virá uma onda vermelha que irá varrer a igreja do mapa, vinda do Governo". Francamente, se o PSTU, o PCO ou outro partido de extrema esquerda tivesse alguma representatividade, eu me preocuparia. Mas não me esquento com isso. Não vale a pena.

O que eu acho do capitalismo?

Sou a favor das pessoas ganharem dinheiro com seu trabalho. Sou a favor do comércio, do mercado, das ideias, e de que pessoas possam ganhar dinheiro, enriquecer e serem bem sucedidas. Acho bacana isso.

Mas do jeito que é, não dá. Tenho um amigo que diz que o livre mercado deve pautar tudo. Eu discordo veementemente, pois todas as vezes em que deixaram correr solto, não deu boa coisa. Vide o crack da Bolsa, em 1929, e mais recentemente, a crise de 2008. Se não fosse o Governo americano salvando a GM (com US$ 50 bilhões), ela tinha falido e levado centenas de milhares de pessoas à falência pessoal. Mas eles já venderam as ações que tinham comprado. Então, livre mercado, né? Olha no que deu... Fácil dizer quando há estabilidade nos seus empregos. Conheço alguns funcionários públicos neoliberais, que defendem o livre mercado com unhas e dentes. Será que o dele está garantido quando a empresa pública for privatizada? Duvido.

Acho que o Governo deve intervir no mercado sim, mas com limitações. Sou a favor do Governo apoiar os mais necessitados, dando condições para que eles ingressem no mercado consumidor. O mercado nunca deve ser controlado pelo Governo, mas o mesmo deve colocar regras e normas, fiscalizar para que elas sejam cumpridas, e punir quem as descumpre. Agências reguladoras tem esse papel, como CVM, ANATEL, ANEEL, ANAC e outras - por mais que não cumpram bem o seu papel, lamentavelmente.

Haverão aqueles que dirão que temos que ensiná-los a pescar, o que eu concordo. Mas, e se eles não conseguem nem levantar a vara de pesca? Primeiro temos que dar-lhes os peixes enquanto eles aprendem a pescar. Se você vier pronto para marretar o Bolsa Família por conta disso, deixa eu te passar uns números... Leia e depois critique. Aliás, o melhor texto que já li sobre o Bolsa Família (eu e a Maria Frô achamos isso) foi escrito por um amigão meu, o Daniel Caetano. Leia aqui. Mas leia todo, tá? É longo, e eu sei que muita gente não gosta de ler muito.


Tenho um amigo que disse-me outro dia: "Eu não sou de esquerda. Eu simplesmente odeio a direita". Eu não chego a odiá-los, assim como não odeio a Microsoft, ou a Apple. No caso de ambas, não gosto de fanatismo. Não gosto de fanatismo de qualquer espécie, seja religioso, político ou de futebol. Odeio aqueles que não sabem discutir como pessoas civilizadas sobre qualquer assunto, que arrogam para si toda a sabedoria, declarando que quem não concorda com sua visão, é tolo, burro, imbecil ou faz uso de um palavreado chulo. Sim, eu odeio a arrogância, e abomino quem não consegue discutir com um mínimo de decência. Infelizmente, a maior parte dos partidários da direita são adeptos dessa forma de argumentação pobre e falha. Quer ler e dar voltas no estômago? Leia os colunistas da revista VEJA (não, não vou fazer um link aqui).

Portanto, se quiser discutir comigo, se informe antes, e vamos conversar. Aceito posições contrárias, mas declarações de ódio a seja lá quem for não cai bem em pessoas educadas e civilizadas.

Bem, é isso. Se você entendeu, ótimo. Se você não entendeu, volte para o início e leia tudo de novo. Se você concordou, beleza. Se discordou, beleza também.

Mas me respeite, diacho.

PS: Quer saber sua posição? Clique aqui e responda o questionário.

PS 2: Fui rotulado de idiota, babaca e outros argumentos mal-cheirosos num post no Google Plus enquanto escrevia esse texto. O que fiz? Bem, falei a mesma coisa que coloquei aqui em cima, no finalzinho. E bloqueei ambos os imbecis. Porque quem não consegue conversar civilizadamente, não merece meu crédito.

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2 Comments:

Blogger Unknown said...

amigo, assim como vc votei no PT nas ultimas eleicoes. Gostei muito do seu post, que esta baseado em estudos com fontes confiáveis e neutras. Entretanto, discordo em algumas citações, pois considero que politica do PT esta equivocada e precisa ser revista por seus partidários ... mais um mandato no poder o pais pode perder tudo que conquistou ate hoje. Precisamos mudar o rumo do pais com ideias novas, pois afinal somos um pais rico e nossa riqueza poderia se melhor distribuída ... principalmente para pessoas que propiciam o crescimento economico do pais, ou seja a classe trabalhadora (que deveriam ser o propósito do PT) ... eles preferiram se especializarem em corrupção, propinas e protecao a bandidos em detrimento da classe trabalhadora.

14/04/2014 08:50  
Blogger Juan Castro said...

Fui fazer esse quiz da Folha... e logo a primeira pergunta me desanimou, muito preto-ou-branco. Eu não me sentiria a vontade respondendo nenhuma das duas alternativas.

17/09/2014 16:23  

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