25 dezembro 2013

F-X2: Perguntas, respostas, opiniões... Parte 6: O Saab JAS-39 Gripen (e o NG)

Quando ouvi falar pela primeira vez do Saab Gripen, eu era um pré-adolescente leitor da coleção "Aviões de Guerra", e o novo caça da Saab era um protótipo. A Saab sueca desenvolveu a espinha dorsal da aviação de caça da Suécia, primeiro com os Saab Drakken (asa em duplo delta e quase 50 anos em operação), depois com os Saab Viggen (asa em delta com canards imensos). Logo, o Gripen é o terceiro da "linhagem", e comercialmente o mais bem-sucedido.



Vamos a alguns dados a respeito do Gripen:
  • Comprimento de pista para pouso e decolagem: 500 m (ou menos).
  • 15 m de comprimento, 8,6 m de envergadura.
  • 9 cabides de armas.
  • 7 toneladas de combustível.
  • 7200 kg de armas.
  • Velocidade máxima: Mach 2,0.
  • Custo por aeronave: US$ 40 milhões, em média.
  • Tempo gasto para substituir a turbina: Menos de 1 hora.
  • Custo por hora de vôo: menos de US$ 4 mil.
  • Pode operar com armamento americano (AIM-9M), israelense (Python), europeu (MBDA), e brasileiro (o Piranha e o A-Darter, desenvolvido pelo Brasil junto com a África do Sul).
  • Apenas uma turbina, o que para um caça de superioridade aérea, é ruim: Falhou essa turbina, caiu no chão.
Em resumo, é um avião versátil, que não está preso a um fornecedor em específico (como todos os outros caças da concorrência), podendo usar configurações de ataque ao solo e de caça, entre outras opções. Ou seja, é um "genérico". Só não é mais versátil do que o F/A-18E/F Super Hornet. Mas o custo é muito menor, é mais leve e mais rápido. Por conta do seu peso leve, é possível que no futuro haja uma encomenda da variante Sea Gripen para que seja usado no porta-aviões São Paulo. A catapulta do São Paulo é para até 13.640kg, o que é bem próximo do peso médio do Gripen. Fica mais fácil adaptar a catapulta para disparar um avião pouco mais pesado do que muito mais pesado, como o Super Hornet.

O Gripen pode levantar vôo a partir de 500 m de rodovia (já pensou um pousando no meio da grande reta da Ponte Rio-Niterói, ou da Rodovia Presidente Dutra?), reabastecido e rearmado em minutos, e levantar vôo de lá mesmo. Em situações de guerra... É uma ótima pedida.

Algumas questões importantes:
  • A motivação sueca em ter seus próprios caças começou lá atrás, na Segunda Guerra Mundial. No período entre 1939 e 1945, a Suécia colocou-se neutra, e através de fábricas de armas, como a Bofors, vendeu canhões antiaéreos para os Aliados e para o Eixo. Após, iniciada a Guerra Fria e mantida a sua posição de neutralidade, os suecos perceberam que independência no quesito defesa era uma boa ideia. Estrategistas da OTAN e do Pacto de Varsóvia sabiam que caso ocorresse uma IIIa Guerra Mundial, o primeiro lugar a ser invadido por tropas soviéticas seria a Península Escandinava, onde estão localizadas a Finlândia, a Suécia e a Noruega. Logo, era necessário que eles se armassem.
  • A geografia sueca é bem escarpada: Fiordes, montes altos, muita neve, frio... Isto então definiu muitas das ações do Ministério da Defesa sueco, em particular com aviação de caça. Não é incomum encontrar bases com um esquadrão de caças no meio das cidades, incrustados em montes. Logo, eles precisavam de aviões com capacidade STOL (decolagem e pouso em pistas curtas e mal-preparadas), que fossem de manutenção fácil (mecânicos não especializados poderiam consertá-lo se maiores dificuldades, além de acesso fácil aos componentes internos), rápidos, pequenos (espaço é um problema) e bem armados. Deveriam ser ágeis e eficientes.
  • Mais uma coisa: A Suécia é um país rico, mas pequeno. Seu PIB é quase 5 vezes menor do que o do Brasil, e seu número de habitantes é menor do que todo o estado do Rio de Janeiro. Eles não vivem em constante estado belicoso com seus vizinhos (Índia e Paquistão, um abraço). Logo, investimentos em armas não são uma tônica do governo. Isto significa que investir numa indústria nacional de produção de equipamentos destinados a um avião caça, para que ele seja 100% sueco, é caro demais. A relação custo-benefício não é boa.
  • A Saab sempre soube que não dominaria todas as etapas da produção, e não teria dinheiro para fazê-lo. Logo, a melhor opção é diversificar. Então aproveitou-se do bom relacionamento que tinha com fabricantes de equipamentos de outros países, e itens menos relevantes para a segurança do funcionamento da aeronave, comprou de estrangeiros ou licenciou e montou na Suécia mesmo. Os aviônicos (a parte mais importante da aeronave) são fornecidos por empresas suecas, como a Ericsson.
  • Uma parceria com o Brasil (uma economia emergente) traz benefícios para ambos os lados: Por um lado eles ganham o respaldo brasileiro para vender Gripen NG para a América Latina, África e outros países com os quais o Brasil tem bom relacionamento (aliás, é difícil ver quem não gosta do Brasil), e o Brasil ganha em desenvolvimento de indústria local, produção de equipamentos, e lucramo$ com a venda. Sim, o Brasil poderá montar e vender Gripen para outros países.
  • Ah, ele é bem-sucedido comercialmente? Vejamos as vendas do Gripen... Suécia, República Tcheca, Hungria, Inglaterra (para testes de vôo), África do Sul e Tailândia. A variante NG (ou E/F) está sendo cogitada pela Suíça, e será adquirida pelo Brasil. Canadá, Croácia, Dinamarca, Holanda e Bulgária manifestaram interesse. Além deles, Finlândia, Eslováquia, Omã e Filipinas. A lista está na Wikipédia. Logo, é muito bem sucedido comercialmente.
Alguns aqui irão protestar, dizendo que 1/3 do Gripen vem de empresas estrangeiras. Para quem não conhece, parece que são peças fundamentais, e que atrelam o fabricante do avião a um fornecedor apenas. É, eu também achava isso. Mas na verdade, equipamentos como a turbina e o radar são commodities.

A turbina do Gripen, por exemplo, é a GE F404 (americana), mas ele também pode usar a versão licenciada pela Volvo, a RM12 (sueca), ou até turbinas feitas pela Rolls-Royce (inglesa) - que se não me engano, tem uma linha de montagem em São Paulo. Ou seja, basta trocar e pronto. Ah, e o Gripen pode tê-la trocada em menos de uma hora.

Quanto ao radar, ele é feito pela Ericsson (sueca), em parceria com a GEC-Marconi (inglesa). Mas é possível usar outro radar que não seja o PS-05/A no Gripen? A versão brasileira irá usar o ES 05 Raven, que será desenvolvido pela Selex Galileo (subsidiária americana de uma empresa espanhola), junto com a Saab e a indústria brasileira.

Comparando com computadores usando software livre, o sistema operacional do aparelho está aberto e livre para quem quiser mexer, mas placas-mãe, processadores e memória não. Só que você está livre para comprar esses insumos onde quiser, ou até montar uma fábrica e produzir localmente.

O vice-presidente da Saab explica: "O Gripen é uma aeronave sueca no sentido em que estamos em total controle de sua tecnologia e produção". Além disso, ele declara que "Temos o total controle. Isso significa que quando trabalharmos com o Brasil, não haverá nada escondido dos olhos e ouvidos dos brasileiros. E ninguém precisará pedir permissão a outro país para modificar o produto. Os caças entregues à FAB serão de total controle dos brasileiros." Já o ministro da Defesa, Celso Amorim, declara que a transferência de tecnologia chegará a 80%, na questão à estrutura da aeronave. "Não necessariamente serão fabricadas todas as peças no Brasil. Ninguém faz isso", e o mais importante é produzir "a tecnologia mais específica no Brasil"

Ou seja, o principal, que é o sistema de controle do avião (armas, aviônicos, etc), o Brasil terá total acesso e controle. Logo, isso será uma tremenda vantagem para o nosso país.

Quanto à compra pelo Brasil,vamos a alguns pontos interessantes:
  • O Brasil irá adquirir 36 caças Gripen NG, que ainda não estão prontos. O Gripen NG não é "um avião que está só no papel", é uma "versão 2.0" do Gripen atual. Logo, correções, melhorias e modificações serão feitas agora. E o Brasil pode (e deverá) participar.
  • A Saab propõe um compartilhamento no desenvolvimento do avião. As capacidades essenciais a serem compartilhadas pelas equipes do Brasil e Suécia devem ser integração de armamento, integração do motor, de sistemas, possibilidade de projetar, enlace de dados, seção de reflexão ao radar, integração de sistemas comerciais, radar, aerodinâmica, avaliações e testes, sobrevivência, desenvolvimento de programas de computador, integração de sistemas táticos, sistema de gravação de dados, funções de navegação.
  • Na fabricação propôs‐se a participação brasileira na produção de 40% dos componentes, esses componentes ainda serão usados nos caças a serem produzidos posteriormente na Suécia tanto para a Força Aérea da Suécia como para outros clientes. O Brasil deverá ser responsável pela fabricação do sistema de rastreamento infravermelho, o sistema de display, o data link e o trem de pouso.
  • Além disso, o pacote contempla treinamento de pessoal para manutenção, simuladores de vôo para pilotos, peças sobressalentes, entre muitos outros itens. Não é só os 36 caças, o pacote engloba muito mais.
  • O Brasil pretende alugar ou pegar emprestado (depende da interpretação) alguns caças Gripen C/D, para substituir em caráter emergencial os Mirage 2000, que serão aposentados na despedida do ano de 2013. É possível que já tenhamos Gripens voando sobre solo pátrio até o final de 2014.
  • Minúcias do contrato serão traçadas ao longo de 2014. Mas a partir da 5a aeronave, o Gripen NG já será montado no Brasil.
Agora, as fofocas:
Vocês viram o papelão da Boeing e da Dassault? Dá para ver que o mercado de defesa está com problemas. Vamos ao que foi dito a respeito da Boeing:
A recusa brasileira do Super Hornet e a perda de um grande contrato de F-15s com a Coreia do Sul em outubro de 2013 ameaçam as linhas de produção na área de Saint Louis que empregam funcionários da Boeing, fornecedores e a qualidade do crédito do município. Nos níveis de produção atuais, o Super Hornet sairia de linha em 2016, e os F-15 dois anos depois. A Boeing e seus fornecedores vinham contando com acordos militares no exterior para ampliar a vida dos dois aviões, mas as pressões orçamentárias estão atrasando os fechamentos de contrato em alguns mercados cruciais, além de reduzir compras nos Estados Unidos. (...) O Super Hornet, cujo maior cliente é a Marinha dos EUA, sustenta cerca de um terço dos 15 mil empregados da Boieng no Missouri. O avião e outros negócios da empresa fornecem cerca de um bilhão de dólares em encomendas anuais para quase 700 fornecedores no Missouri.
(Defesa Aérea e Naval)

Acho que os americanos não acreditaram que o escândalo de espionagem fosse afetar tanto... O comunicado oficial da Boeing (bem insosso, por sinal) está aqui.

E os franceses, parceiros de 40 anos da FAB? Bem, eles foram um pouco mais ríspidos (como é esperado dos franceses). Vamos lá... Eles falaram que o Gripen é inferior ao Rafale em quase tudo, e foram bem diretos quanto a isso. Em resposta, trago a frase do vice-presidente da Saab:
Desculpe dizer, mas acho que os franceses estão dizendo besteira. Poderia sentar e discutir com eles todos os aspectos das duas aeronaves. Mas, no final, há um aspecto, apenas um, em que o Rafale é melhor: o fato de ele poder carregar armas nucleares. E o Gripen não. O Gripen carrega mais munição, tem um radar melhor, é mais acessível financeiramente, o que vai consumir menos dinheiro do contribuinte brasileiro.
O comunicado da Dassault está aqui. Depois, eles esnobam. A preocupação da Dassault é a paralisação da linha de montagem do Rafale, já que eles prevêem a venda de um certo número de aviões Rafale para garantir o equilíbrio financeiro. Se desequilibrar... Babau. Manter uma linha de montagem é muito caro, e com isso a França tenta vender o Rafale a todo custo para a Malásia, após o fechamento do contrato com a Índia.

Bem, é isso. Não tenho mais o que falar a respeito, e convido todos a comentarem. Eu sou fã do Gripen, e quem me conhece, sabe que falei dele há tempos como a melhor opção para o país. Espero estar certo. E que venham mais do que 36 caças.

Meus agradecimentos aos sites Poder Aéreo, e Defesa Aérea e Naval , inúmeros blogs e sites consultados, além da coleção "Aviões de Guerra". Espero que vocês tenham gostado, e trazido algum esclarecimento a respeito do assunto. Agora é esperar... E aguardar seus comentários.

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6 Comments:

Blogger Comendador Phyntias said...

Prezado Ricardo Pinheiro: antes de mais nada, meu melhor agradecimento pela matéria - as seis partes - que é tão completa que torna dispensáveis as constantes visitas aos sites especializados em aviação de defesa e coisas tais. Sua análise esclareceu-me muitas coisas e fico feliz em encontrar alguém interessado no assunto sem ser militar ou aviador, como você e eu. Tomei a liberdade de copiar e colar nos meus arquivos de tão correto é esse material. Vou incluir seu Blog nos meus favoritos. Um bom ano novo para você e todos nós e que venham os Gripens...
Carlos Alberto Lemes de Andrade - Campanha - MG

28/12/2013 09:39  
Blogger Helio Martins said...

Caro Ricardo Pinheiro,fui bastante feliz em ter encontrado seu blog depois de algumas buscas,achei-o bastante completo com as seis partes sobre o assunto dos caças e também muito esclarecedor.Sou,desde criança,apaixonado por aviões,especialmente de caça,e depois de observar alguns deles sobrevoando minha casa,descobri que eram os tais F-5 e que depois de ler estes posts seus passei a saber muito sobre eles e os Gripen,comprados agora
Para mim,acho que a decisão da compra destes em detrimento da opção mais apropriada,dos Hornets,pode ser nada inteligente imediatamente,mas que por também não ser economicamente interessante diante de tantas outras necessidades deste nosso emergente país,acho e também espero que poderá se tornar a melhor decisão em termos de
estratégia econômica e militar.

28/12/2013 14:56  
Blogger Helio Martins said...

Este comentário foi removido pelo autor.

28/12/2013 14:57  
Blogger Helio Martins said...

Caro Ricardo Pinheiro,fui bastante feliz em ter encontrado seu blog depois de algumas buscas,achei-o bastante completo com as seis partes sobre o assunto dos caças e também muito esclarecedor.Sou,desde criança,apaixonado por aviões,especialmente de caça,e depois de observar alguns deles sobrevoando minha casa,descobri que eram os tais F-5 e que depois de ler estes posts seus passei a saber muito sobre eles e os Gripen,comprados agora
Para mim,acho que a decisão da compra destes em detrimento da opção mais apropriada,dos Hornets,pode ser nada inteligente imediatamente,mas que por também não ser economicamente interessante diante de tantas outras necessidades deste nosso emergente país,acho e também espero que poderá se tornar a melhor decisão em termos de
estratégia econômica e militar.
Helio Roberto Martins - Itanhandu - MG

28/12/2013 14:58  
Blogger Ricardo Pinheiro said...

Puxa, obrigado, Hélio, e Comendador Phyntias, pelos comentários.

Como disse, o Governo, na minha opinião, tomou a decisão mais acertada. Não vou explicar o por quê, seria um insulto à inteligência de vocês explicar tudo de novo.

Mas acho que devemos investir nas Forças Armadas para sermos capazes de nos defender. A Frota do Atlântico (dos EUA) foi reativada, as ilhas de Assunção e as Malvinas (Falklands) continuam c/ bases inglesas... Nunca se sabe, nunca se sabe... N entramos numa guerra há muitos anos, mas "o preço da liberdade é a eterna vigilância".

Nosso emergente país tem um montão de necessidades. Mas acho q investir nessa é acertada, se bem q estamos bem atrasados, 15 anos de estudo... Mas chegamos lá. Q venham os Gripen!

Obrigado pelos comentários simpáticos!

11/02/2014 10:36  
Blogger Cláudia, Onadir, Silvio, Vantos said...

Olá Ricardo!
Outro dia li algumas reportagens sobre uma empresa paulista que desenvolveu turbinas para aviação e misseis. Não seria estratégico incluir tal empresa no projeto e equiparmos o futuro caça com uma turbina "made in brasil"
Abç.
Silvio.

03/04/2014 08:50  

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