02 outubro 2014

Como ser professor?

Num comentário no Diário do Centro do Mundo (site imperdível, recomendo), me perguntaram sobre como ser professor, lidar com a diversidade em sala de aula, evitar o preconceito, etc. Foi numa matéria onde falou-se de uma menina que foi chamada de macaca pela professora. Daí eu escrevi, e aqui tem a versão editada e melhorada:

Seguem aqui os meus 10 Mandamentos como professor:
  1. Aluno é um indivíduo (por mais que alguns não pareçam), e deve ser respeitado. Se ele é diferente dos outros, isso não é impedimento para o aprendizado. Se há, tente buscar ajuda com a escola. Já tive alunos surdos, com síndrome de Asperger e hiperativos em sala, e você tem que saber como lidar com isso, no meio da coletividade.
  2. Você tem que lidar com a diversidade de alunos em sala de aula ao seu favor. Mas não ressalte diferenças, se você não é preconceituoso, não o seja.
  3. Exercite o sangue-frio. Você irá ouvir as pérolas mais escabrosas vindas das bocas mais puritanas, ou as cretinices maiores advindas das mentes mais vazias. Não se chocar em público (por mais que você queira chorar depois) ajuda muito a entender os alunos e fazer com que eles percebam que você não os discrimina.
  4. Você não está lá para fazer amigos, mas para cumprir o seu trabalho. Se alguns deles tornarem-se seus amigos posteriormente (e já aconteceu comigo), ótimo. Mas não é o seu propósito, ele é o de instruir e ajudar na educação daqueles jovens. Nisso inclui-se alunas que tem por sonho "namorar um professor". Caia fora disso.
  5. Professor tem que se impor em sala, no sentido de ser líder e não ditador. Adolescentes adoram questionar, e se você começar a "cagar regra", vai perder a autoridade rapidamente. Ouça e seja ouvido. Seja sensível para parar a aula para uma conversa que seja útil: sobre estágio, futuro profissional, dúvidas, formação acadêmica ou questões relacionadas a acontecimentos atuais. Isto pode mostrar-se mais valioso do que ditar conteúdo nos ouvidos deles. Muitas vezes eles querem ser ouvidos também.
  6. Aluno é ser humano, e com isso vai tentar torcer o jogo a favor dele. Logo eles tentarão te chocar, com frases e atitudes; alunas se insinuarão lascivamente para você; alunos tentarão rasurar a sua correção para depois pedir revisão de prova; outros irão tentar torcer a prova para extrair, de forma legal, até o último décimo-milésimo ao qual eles tem direito; pela ótica dos alunos, o critério de arredondamento é sempre a favor deles, e nunca o correto; o interminável lamento e solicitação de pontos, choro e ranger de dentes... Fora a maldita cola. Isso tudo faz parte do jogo, principalmente a partir do mês de outubro de todo ano. Se imponha, mas seja justo.
  7. Picareta tem em todo lugar, e tem muito professor que usa a desculpa do salário insatisfatório e falta com atestado médico forjado; anula 2/3 da prova para não ter trabalho de corrigí-la; ignora a prova única aplicada para fazer do seu jeito; distribui pontos a torto e a direito para não ter trabalho; libera o aluno mais cedo somente para ele poder ir embora logo almoçar ou ir para casa ou assumir outro compromisso; ensina nada, deixa os alunos à toa enquanto usa o tempo para resolver problemas pessoais. A lista de cretinices cometidas por professores é interminável. Não se misture com eles. Ande com eles, mas faça bem o seu trabalho. Seu público (os alunos) não tem nada a ver com as suas insatisfações com seu patrão (seja o dono da escola, ou o governo, ou quem quer que seja).
  8. Tenha bom humor, e seja flexível. Já reprovei alunos com dó no coração, porque o sujeito era esforçado mas não tinha nota para passar nem de longe. Mas já empurrei alunos que faltavam pouco para passar. A aluna me agradeceu no ano seguinte e seguiu bem melhor. Ela formou-se e hoje trabalha com um amigo, em outro setor da fundação. E ela ouve de mim a frase quando os visito: "É, esse lugar já foi mais bem-frequentado...".
  9. Uma frase do meu professor de Pedagogia: "Professor tem 2 mochilas: A com material de trabalho e a que estão os seus problemas, dificuldades, insatisfações... Essa fica na porta da sala de aula, e você só pega ela de volta quando sair de lá".
  10. Uma última coisa: você, como professor, impacta vidas. é o exercício de imortalidade que o Rubem Alves fala. E isto não tem preço algum que pague. Tive essa experiência em 2012, quando a mais de 1500 km da minha casa reencontrei um ex-aluno, 13 anos depois. Ele enveredou por um caminho que eu ajudei ele a desbravar. Quase chorei de alegria quando ele me abraçou e disse: "Professor, foi na sua aula que eu tive o primeiro contato! Obrigado!"
Em suma: Dar aula tem um monte de problemas, mas é uma cachaça - Você vicia e não quer largar mais.

Marcadores: , , ,

0 Comments:

Postar um comentário

<< Home